Quem imaginaria que aconteceria tudo isso nessa viagem?

Quase caí da cadeira quando me falaram. Um importante presidente de uma rede de clínicas e hospitais ligou para Medware: “Quero 120 sistemas”! Uau! Sem palavras! Todos ficaram em silêncio quando foi anunciado, dava para ouvir uma agulha caindo no chão. Era inacreditável, mas real.

Só que tinha um porém, sempre tem. Não sei por que as coisas não são diretas, ele bem que poderia só fechar o pedido, mas ele tinha um “porém”. Era necessário demonstrar para a sua esposa, uma médica ultrassonografista. Se aprovado fosse… negócio fechado.

A missão era simples: ir ao hospital onde ela atende, demonstrar o sistema, conseguir sua aprovação e voltar feliz da vida para Brasília. Não poderia dar nada de errado. Mas só que não.

Fui ao aeroporto com destino à futura cliente. Há 15 anos era muito fácil viajar, dava para chegar no aeroporto, comprar a passagem e entrar a bordo horas depois. Não era preciso ir na agência de turismo, era comprar e voar. Hoje não mais.

Chegando na cidade fui direto ao hospital, queria logo a aprovação da futura cliente. Mas não deu certo, ela estava ausente. Tive que remarcar para o outro dia. Aproveitei a oportunidade para visitar outro cliente. Também não estava. Nesse outro, sua clínica era dentro de um shopping. Como tinha saído às pressas de Brasília, precisava sacar dinheiro, então fui ao caixa eletrônico. Estranhamente a máquina acusou: “Seu cartão está bloqueado”! Não só um, mas todos. Logo imaginei ser defeito. Sem me preocupar, fui procurar um hotel para me hospedar, mais tarde tentaria novamente. Ainda tinha o suficiente para pegar um táxi.

À noite, após descansar no hotel, sai à procura de um lugar para sacar dinheiro. Achei facilmente. Mas agora a mensagem foi pior: “Seu cartão foi clonado, por motivo de segurança ele será retido”! Sem mais a máquina engoliu o cartão, nem imaginava que isso era possível, quase tive um infarto. Fiquei desesperado. Sem cartão de débito, o que seria de mim?

Ao amanhecer liguei para o meu sócio, era necessário ligar para o banco e me dar uma solução. Em poucos minutos, ele respondeu: “Uma série de contas bancárias foram clonadas, então, por motivo de segurança, foram bloqueados os cartões”! Fiquei mudo naquele momento. O que eu poderia fazer? Estava com pouco dinheiro na carteira, sem cartões, sem cheque, e tendo que realizar uma das maiores negociações da nossa história. Não poderia ficar pior, mas a Lei de Murphy tinha que valer.

Esse problema ficou em segundo plano, minha missão ainda era demonstrar para a médica o nosso sistema. Falei para o meu sócio resolver com o banco enquanto eu iria ao hospital. Mas, novamente, ela não estava lá. Ficou para o próximo dia. Tudo bem, não posso desanimar. Depois de algumas horas, meu sócio respondeu: deveria ir em uma agência do banco e pedir um cheque especial, os gerentes dos bancos validariam e eu conseguiria dinheiro vivo. Antes do final da tarde, tudo foi resolvido.

Voltei pela terceira vez ao hospital, dessa vez a encontrei. Fiquei na porta do consultório à espera dela me chamar, estava com a agenda cheia, então, entre atendimentos, eu falaria com ela. Sentei-me em frente, coloquei a CPU entre as pernas, entrelacei os dedos das mãos e fiquei à espera do momento.

Demorou um bocado. Lembro-me do suor frio que escorria da minha testa. Fiquei parado à espera da grande oportunidade que eu teria. De repente, a porta se abriu, ergui as sobrancelhas e olhei para dentro. Ela me viu. Antes que eu esboçasse uma reação, um paciente entrou pela porta e fechou. Já tinham avisado da minha presença, mas tudo bem, esperarei a oportunidade. Depois de outros tantos longos minutos, a porta se abriu novamente, mas rapidamente alguém entrou, ela não deu um sorriso e nem um sinal para mim. Comecei a ficar mais tenso ainda.

Decidi me levantar e ficar ao lado da porta, na próxima oportunidade eu falaria algo com ela. Novamente a porta se abriu, e, antes que pudesse dar a minha primeira palavra, fui surpreendido com: “Estou muito ocupada não posso lhe atender hoje, desculpe”! Outro paciente entrou e eu fiquei paralisado diante da porta. Foi uma negação direta. Voltei para a minha cadeira. Diante da maior venda da nossa história havia um grande empecilho. Fiquei rendido diante da situação.

Imagino quantas pessoas devem importuná-la com vendas e produtos, sei que talvez ouvir mais um seria um tédio, mas eu tinha ido somente para aquilo. Nosso sistema tinha vários recursos legais e quem conhecia gostava, eu precisava de uma oportunidade para demonstrar tudo isso para ela. Decidi perseverar, não tinha nenhuma opção senão ficar plantado na cadeira. A cada abertura da porta ela me via. Assim foi durante horas, o dia passou e lá fiquei. Acredito que eu estava com cara de cachorro sem dono, quem passasse ficaria com pena de mim. Depois de muito tempo, ela abriu a porta e disse: “Tá bom, você tem 10 minutos”. Levantei-me com um pulo, acredito que estava com um sorriso de orelha a orelha.

Adentrei-me na sala, rapidamente montei o sistema diante do seu olhar. Calada, ela observava tudo. Em poucos minutos, demonstrei confiantemente a nossa solução. Ela esboçou um sorriso, olhou para o médico assistente e acenou com a cabeça em sinal de aprovação. Em frases curtas, finalizou: “Tudo bem. Gostei. Realmente é muito bom. Tá aprovado”! Saí regozijante daquela sala, parecia que tinha ganhado o campeonato mundial. Foi um típico momento que não dava para segurar o sorriso.

Após todo esse estresse decidi ir à praia, curtir um pouco. Deixei as coisas no hotel e fui a um quiosque. Mas, antes de sentar, notei que tinha deixado até o dinheiro. Ao voltar, pensei: vou ligar para a companhia aérea e ver os horários de voo (lembre-se que em 2000 não tínhamos acesso à internet como hoje). Ela consultou o sistema e disse: “Só temos um voo hoje ao meio-dia”. Perguntei: “E amanhã?”. “Amanhã não tem nenhum”. Era véspera de feriado e os voos estavam cheios. Olhei na carteira e só tinha algumas sobras do dinheiro. Joguei tudo na mala e corri para pegar um táxi. Tinha que comprar a passagem até uma hora antes do voo, ainda faltavam 20 minutos para as onze. O taxista voou para chegar a tempo.

Olhei para o relógio, ainda tinha 10 minutos de crédito, de longe avistei o guichê, que estava vazio. Corri e rapidamente fui atendido. Ela pediu o meu cartão, dei o corporativo. Não demorou muito para receber a mensagem de recusado. Entrei em desespero. Liguei para o meu sócio: “Fala com o gerente, o cartão corporativo não está passando, preciso ir embora”. Nem desliguei o telefone, ouvi meu sócio falar com ele. Então me respondeu: “O problema é o limite, estourou! Vou ver se aumenta aqui”. “Pronto, resolveu, testa aí”. Voltei e deu a mesma coisa, liguei novamente. Ele pediu alguns segundos e pediu novamente para testar. Nada. Os minutos foram passando. Com os olhos vidrados no enorme relógio de ponteiros do aeroporto, vi as minhas possibilidades de viajar se esvaindo. Por fim, a atendente disse: “Não dá mais para comprar”. Fiquei pensando naquela situação: estava com pouco dinheiro, sem cartão, sem crédito para comprar as passagens e diante de um final de semana prolongado com feriado. O que fazer?

Conversando com o meu sócio, lamentando pela situação, ele disse brincando: “Você pode voltar de ônibus”. Uma lâmpada acendeu. Tinha ignorado essa possibilidade, apesar de serem mais de 1500 quilômetros de volta, melhor isso do que virar morador de rua. Peguei um táxi e fui para rodoviária.

Rodando entre os guichês de ônibus achei a linha para Brasília, corri para comprar. O atendente informou que somente no outro dia teria ônibus para minha cidade, naquele momento somente para Goiânia. Fui para longe e com os olhos corria as placas das empresas à procura da palavra “Brasília”. Por detrás, ouvi a conversa do atendente com um senhor.

“Tem linha pra Goiânia?” – o senhor perguntou.

“Tem sim” – o atendente respondeu.

“Quantas poltronas?” – o senhor continuou.

“Temos duas” – o atendente respondeu – “Uma para o senhor e outra para esse cara aí atrás de você”.

Me assustei com a conversa. Rapidamente comprei a passagem. Em poucas horas já estava no ônibus para uma longa viagem de volta. Ainda lembro das músicas cantadas por um grupo de jovens que estava indo para um congresso eclesiástico. Foram vinte e quatro horas, para depois pegar outro ônibus para minha cidade.

Após algumas semanas recebemos a ligação daquele hospital, eles não iriam fechar negócio, o setor técnico não queria um sistema externo dentro da sua rede. Aff!

Moisés Nogueira de Faria
CEO Medware