Além do Subsolo

Ficávamos no subsolo de um prédio. Éramos quatro e uma secretária. Naquele lugar não tinha luz do sol, banheiro e nem recursos, mas sobravam sonhos, alegria e esperança. Com a ajuda de nossa imaginação, dizíamos que um dia nossa sede teria campo de golfe e filias em todo o mundo. O que acreditávamos valia mais do que a realidade, pois em nossos projetos e sonhos tudo era possível.

Viajamos de carro para os congressos médicos, tínhamos uma enorme mala para carregar os computadores e suávamos no dia da montagem. Às vezes enfrentávamos mais de um dia de viagem para chegar lá, e passávamos horas montando e preparando o estande para os clientes. Sendo os recursos escassos, tínhamos poucas madeiras e acabamentos de luxo, mas muitos banners, folhetos e boa vontade para vender. Era difícil passar o dia viajando, chegar e montar o estande, para, no outro dia, assumir o papel de vendedor e fazer acontecer. Lembro-me de uma noite de montagem, às três horas da manhã, desesperado por não ter terminado ainda nosso estande, um montador cantava e de longe eu escutava: “Preciso acabaaaaar logo com isso…”, sentei-me no chão e me rendi ao cansaço. Dali a algumas horas deveria estar ali de novo, mas com terno e gravata, para mostrar nossa solução aos possíveis clientes.

Mesmo com toda dificuldade, durante os eventos, ainda sonhava ser igual aos outros, crendo que um dia teríamos uma equipe de vendas, estande de madeira, produtos em caixas, e eu chegaria de avião e conversaria com os meus amigos e clientes.

Muitos nos acompanharam durante todo esse tempo e acreditaram em nosso potencial mesmo quando tínhamos pouco para mostrar. Mais que clientes, tivemos uma legião de amigos e fãs, fiéis à empresa e aos nossos produtos. Durante toda a trajetória, uma frase sempre nos alegrou: “Eu tenho um Medware”, pois, era falada com orgulho por eles e ouvida com orgulho por nós. Todo esforço e labuta que tivemos gerou valor para os nossos clientes e nos proporcionou fazer o melhor para eles.

Hoje, quando olhamos para trás e vemos toda a trajetória vivida, podemos nos alegrar com toda a concretização do sonho. É verdade que não temos campo de golfe e nem filiais pelo mundo, mas temos um prédio, uma grande equipe, e posso pagar estandes profissionais feitos de madeira e bom acabamento, chego de avião e fico disponível para falar com os bons amigos e clientes.

Temos milhares de clientes espalhados pelo Brasil. Durante essas duas décadas, muitas soluções foram desenvolvidas. Acredito que escrevemos mais de um milhão de linhas de código e desenvolvemos muitos produtos, principalmente personalizados para algumas clínicas. Fizemos muito e ainda vamos fazer muito mais, pois ainda temos esperança e sonhos novos a serem concretizados. Se Deus abençoou o que foi crido no passado, podemos crer que Ele poderá abençoar os próximos projetos a serem realizados. Temos muito a percorrer, força e determinação para realizar. Estamos nos reinventando para sobreviver nos próximos anos e continuarmos sendo relevantes em nosso mercado. Não sei se algum dia teremos esse bendito campo de golfe, mas cremos que podemos ir além do que chegamos e romper.

Em 2016, decidimos rever nossa missão e valores, repensar a empresa e os rumos que teríamos dali para frente. Foram longos meses pensativos sobre qual frase sintetizaria a nossa missão. Olhamos a de várias empresas tentando “colar” algo legal. Não conseguimos nada, e, então, voltamos às nossas origens: o que nos moveu todos esses anos? Qual é a nossa grande característica? Como somos vistos de fora? Só nesse momento entendemos a nossa missão. Mais que tecnologia ou ganhar dinheiro, nosso foco sempre foi o dia a dia médico. Sempre tivemos o foco em promover um melhor ambiente de trabalho para os profissionais de saúde, onde eles poderiam desempenhar seu trabalho com o mínimo de stress e menos culpas do sistema. Sempre desejamos um dia mais produtivo e melhor para eles. Foi assim no começo, tem sido assim, e no futuro será assim.

Moisés Nogueira de Faria
CEO Medware